A Defesa da Água exige uma nova Política Tarifária

Cada ser vivo tem o direito inalienável ao necessário para mantê-lo vivo. Assim sendo, as leis do mercado devem estar subordinadas a essa exigência ética e as políticas públicas devem dar essa garantia.

Desta forma, defender a água pública é ter a coragem de avançar com uma nova Política Tarifária. A situação actual é confusa, não obedece a princípios e não é suportável do ponto de vista da sustentabilidade do Sector.

Para compreender esta situação importa referir que a tarifa média de abastecimento de água se situa actualmente na ordem de 0,77 euros/m3, em abastecimento de água, e que os indicadores disponíveis sobre o custo real do serviço apontam para valores de 1 euro/m3.

Acresce a este facto a efectiva variação nacional dos preços de venda. Neste momento os preços variam entre os 0,15 €/ m3 e os 1,56 €/ m3. Dos duzentos e setenta e oito municípios do continente, mais de quarenta praticam tarifas de venda de água abaixo dos 0,40 €/m3 e cerca de duzentos entre 0,40 e 1,00 €/m3. Esta situação viola claramente os princípios da OCDE e da União Europeia, pois fomenta o desperdício, coloca em causa o princípio da racionalidade e penaliza as gerações futuras.
A estratégia definida, e bem, pelo Governo no PEAASAR (Plano Estratégico de Abastecimento de Água e Saneamento de Águas Residuais), define como objectivo fundamental da política tarifária a cobertura dos custos do serviço através da prática de tarifas reais, moduladas em função das características socio-económicas das regiões e através de mecanismos de solidariedade nacional e regional. Assume um papel destacado a possibilidade de criação de um Fundo de Equilíbrio Tarifário, visando que as tarifas ao consumidor final evoluam para um intervalo compatível com sua a capacidade económica.

No âmbito da política tarifária é minha convicção que se deveria definir a nível nacional a sazonalidade dos tarifários (no Inverno preços mais baixos, no verão preços mais altos), tendo em vista a interiorização, pelo consumidor, do uso eficiente da água, associado à sua escassez efectiva, assim como, determinar que o primeiro escalão (até 5/m3) deve ser sempre alvo de aumentos inferiores à inflação, medida de cariz social que salvaguarda no imediato as necessidades básicas da população em geral.

Manter o sector da água na esfera pública, não privatizando o Grupo Águas de Portugal, é uma opção política. E a garantia desta opção, está em continuar uma política que reforce a sustentabilidade do Sector para se concretizar uma nova cultura da água que se baseie no princípio universal do respeito pela vida.

Marcos Sá
(Deputado da Assembleia da República)

Um Comentário a “A Defesa da Água exige uma nova Política Tarifária”

  1. José Albuquerque diz:

    Há de vir o tempo em que o recurso estratégico da água poderá ser fonte de conflitos e guerras. As alterações climáticas aceleradas estão já aí e não tarda uma relação oferta / procura no sentido de aumentar o preço da água por esta se tornar escassa.
    Sustentabilidade e uso eficiente da água está agora na ordem do dia tal como a crise finenceira e económica associada aos preços das matérias – primas.
    Uma nova ordem mundial implica também a revisão urgente da gestão dos recursos hídricos de forma sustentável.
    Não basta já sermos poupados no consumo da água, além da prevenção é necessário formação e até punição no uso abusivo da água.

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